O custo do inventário extrajudicial não é uma tarifa única. O orçamento combina imposto estadual, emolumentos do tabelionato, registros dos bens, honorários, certidões, avaliações e eventuais regularizações. O valor do patrimônio influencia várias parcelas, mas a quantidade de bens, a localização e o desenho da partilha também mudam a conta.
Desde agosto de 2026, o CNJ deixou de condicionar a escritura ao pagamento prévio do ITCMD. A mudança é importante para o fluxo do cartório, mas não extingue o imposto nem altera automaticamente prazos, alíquotas e multas estaduais. Por isso, orçamento e calendário tributário precisam ser montados juntos.

Quais despesas entram no inventário extrajudicial?
Uma planilha realista deve separar pelo menos sete grupos:
- ITCMD: imposto sobre a transmissão por herança, calculado segundo a legislação do estado competente.
- Escritura: emolumentos do tabelionato de notas, geralmente relacionados ao valor econômico.
- Registros: matrícula de imóvel, veículo, quotas sociais, ativos financeiros e outros direitos.
- Honorários: diagnóstico, documentos, declaração fiscal, minuta, escritura e atos posteriores conforme contrato.
- Certidões: documentos pessoais, imóveis, testamento, fiscais e outros exigidos pelo caso.
- Avaliações: laudo ou apoio técnico quando o valor de mercado não é evidente.
- Regularizações: matrícula desatualizada, construção não averbada, empresa irregular ou bem sem documentação.
O erro comum é solicitar somente “o preço do cartório” e tratá-lo como custo total. A escritura é uma parte do caminho. Se três imóveis forem partilhados, haverá atos de registro em cada matrícula. Se existirem bens em estados diferentes, tabelas e providências podem variar.
Como o ITCMD afeta o orçamento?
O ITCMD é estadual. Base de cálculo, alíquota, isenções, prazos e multas dependem da legislação aplicável. Em São Paulo, a Secretaria da Fazenda informa alíquota de 4% e cálculo sobre o valor de mercado dos bens e direitos na data do falecimento, respeitadas regras específicas.
A página oficial de declaração e cálculo do ITCMD de São Paulo — fonte oficial externa explica que o sistema gera a guia a partir dos dados informados. Não transporte essa alíquota para outro estado sem conferir a norma local.
Partilha desigual exige atenção. Se um herdeiro recebe valor acima do próprio quinhão sem compensação adequada, o excesso pode ser tratado como doação e gerar tributação adicional. Antes de assinar, compare os quinhões em valores, não apenas em quantidade de bens.
O que mudou em 2026 sobre o pagamento prévio?
O CNJ — fonte oficial externa informou que a lavratura da escritura deixou de depender da comprovação do pagamento prévio do ITCMD. A regra anterior do artigo 15 da Resolução nº 35 foi alterada pela Resolução nº 695/2026.
Isso não equivale a isenção. A obrigação tributária permanece, e a escritura deve comunicar a informação fiscal conforme a disciplina aplicável. Em São Paulo, a Fazenda criou serviço específico para escrituras lavradas sem recolhimento prévio e ressalvou que a mudança notarial não revoga a legislação estadual.
A orientação paulista sobre escritura sem recolhimento prévio — fonte oficial externa deve ser lida antes de definir cronograma. A família pode ganhar flexibilidade para formalizar o ato, mas precisa reservar recursos e cumprir obrigações no prazo.

Como são calculados cartório e registros?
Emolumentos são definidos em tabelas estaduais e podem usar faixas de valor. O orçamento do tabelionato considera a escritura; depois, cada bem poderá exigir outro ato. Imóvel é levado ao registro de imóveis competente, veículo segue o órgão de trânsito e quotas sociais podem demandar alteração na Junta Comercial ou registro civil de pessoas jurídicas.
Peça orçamento escrito com data e premissas. Informe quantidade, natureza e valor dos bens, número de herdeiros e formato da partilha. Uma estimativa feita antes da avaliação pode mudar quando a base econômica for confirmada.
Certidões têm validade e custo próprios. Emiti-las cedo demais pode exigir renovação; tarde demais pode atrasar a escritura. Um cronograma coordenado reduz duplicidade.
Honorários: o que deve constar da proposta?
A assistência de advogado ou defensor público é obrigatória na escritura. O artigo 610 do Código de Processo Civil — fonte oficial externa prevê a via pública quando os requisitos estão presentes e exige assistência jurídica.
A proposta deve explicar se inclui:
- análise de herdeiros, meação, testamento e regime de bens;
- levantamento e organização patrimonial;
- declaração de ITCMD e respostas a exigências fiscais;
- minuta, negociação e acompanhamento da escritura;
- obtenção de certidões;
- registro dos imóveis e atualização dos demais ativos;
- sobrepartilha, retificação ou regularização prévia;
- despesas de terceiros e deslocamentos.
Compare escopos equivalentes. Uma proposta que termina na assinatura da escritura não é igual a outra que entrega os bens registrados em nome dos sucessores. Verifique também honorário mínimo, percentual, parcelamento e trabalho extra.
Como montar uma simulação sem anunciar preço enganoso
Use uma planilha com colunas para bem, localização, valor de mercado, quinhão, imposto estimado, escritura, registro e pendência. Depois, crie três cenários:
- base: documentos regulares e partilha proporcional;
- prudente: inclui renovação de certidões, avaliação e pequena exigência;
- complexo: prevê retificação, empresa, bem em outro estado ou discussão fiscal.
Não some percentuais genéricos encontrados na internet. Emolumentos mudam por estado e faixa; honorários dependem do escopo; imposto exige base de cálculo. A simulação deve registrar a data e a fonte de cada número.

Despesas invisíveis que aparecem depois
Construção não averbada, matrícula com nome antigo, veículo bloqueado, empresa sem balanço e cadastro fiscal divergente podem exigir serviços anteriores ao registro. Um imóvel que parece simples pode demandar retificação de área ou quitação documental.
Também há custos de liquidez. A família pode ter patrimônio alto e pouco dinheiro disponível. Condomínio, tributos, seguro e manutenção continuam vencendo. Se for necessário vender bem para pagar despesas, as regras atuais do CNJ admitem soluções específicas, com controle da destinação e garantias, que devem ser planejadas no caso concreto.
Inclua reserva para registros pós-escritura. O inventário só alcança seu resultado prático quando cada ativo aceita o título e passa para os sucessores.
Como reduzir custo sem criar risco
Redução saudável vem de organização: reunir documentos uma vez, atualizar valores, resolver divergências cedo e escolher partilha registrável. Consenso diminui atos, mas não justifica omitir bens ou atribuir valores artificiais.
Evite deixar o caso parado. Prazos estaduais podem gerar multa e juros. Compare alternativas de partilha considerando tributos e registros, e não apenas preferência emocional. Às vezes, concentrar um bem em um herdeiro cria excesso de quinhão e custo maior.
Se houver hipossuficiência, investigue regras locais de gratuidade, isenção e atendimento pela Defensoria. Não presuma que são automáticas: requisitos e alcance variam.
Checklist de orçamento
- Confirmar estado competente e data do falecimento.
- Listar todos os bens, direitos e dívidas.
- Definir valor e fonte de avaliação.
- Calcular meação e quinhões.
- Simular ITCMD e eventual excesso de partilha.
- Solicitar orçamento do tabelionato.
- Solicitar estimativa de cada registro posterior.
- Conferir escopo dos honorários.
- Mapear certidões e regularizações.
- Reservar liquidez e registrar prazos.
Exemplo de raciocínio para uma família com imóveis
Imagine um espólio com apartamento, terreno, automóvel e saldo bancário. O primeiro cálculo não deve somar apenas os preços anunciados dos bens. É preciso confirmar valor de mercado, eventual meação, dívidas vinculadas e a fração transmitida aos herdeiros. Só então aparece a base que será levada à declaração fiscal e à tabela do cartório.
O apartamento e o terreno terão matrículas distintas e, após a escritura, cada registro cobrará o ato correspondente. O veículo seguirá procedimento próprio. O saldo bancário pode ser levantado com a escritura, mas a instituição pedirá documentos e verificará a titularidade. Se um herdeiro ficar com o apartamento e outro com os demais bens, compare os valores líquidos para identificar compensação ou excesso.
Essa simulação também deve indicar quem antecipa cada despesa e como haverá reembolso. O espólio pode ter recursos, mas eles podem estar indisponíveis até a apresentação do título. Uma convenção familiar escrita evita que apenas um herdeiro arque com certidões e manutenção sem saber quando será compensado.
Valor de mercado, valor venal e base tributária
Um mesmo bem pode aparecer com valores diferentes em documento municipal, anúncio, avaliação e declaração fiscal. A legislação estadual define qual referência deve ser usada e pode permitir revisão pela fiscalização. Não escolha o menor número apenas para reduzir o imposto: subavaliação pode gerar exigência, multa e atraso no registro.
Para imóvel, reúna matrícula, cadastro municipal ou rural, características da construção, localização e negócios comparáveis. Para empresa, balanço, contrato social e demonstrações podem ser necessários. Investimentos, créditos judiciais e ativos digitais também exigem critério de avaliação compatível com a data do falecimento.
Registre a origem do valor em uma nota da planilha. Se houver divergência relevante entre herdeiros ou dúvida técnica, uma avaliação independente pode custar menos do que corrigir escritura e imposto depois.
Prazo, multa e o custo de esperar
A via extrajudicial é frequentemente associada à rapidez, mas a demora na reunião de documentos pode gerar custo tributário e patrimonial. Estados estabelecem prazos próprios para declaração e pagamento do ITCMD. Além de multa e juros, o espólio continua arcando com condomínio, tributos, seguro, manutenção e perda de oportunidade.
Faça uma linha do tempo desde o falecimento: prazo fiscal, validade das certidões, entrega de avaliações, minuta, assinatura e registros. A nova possibilidade de lavrar escritura sem pagamento prévio não deve ser confundida com autorização para ignorar a Fazenda. O calendário notarial e o tributário precisam conversar.
Se surgir dificuldade de liquidez, trate-a no início. Venda autorizada, parcelamento previsto em norma local, uso de recursos do espólio ou organização entre herdeiros exigem documentação. Deixar a questão para a véspera da assinatura tende a aumentar custo e tensão.
Como pedir e comparar três orçamentos
Envie o mesmo resumo para cada profissional ou serventia: data do falecimento, estado, número de herdeiros, existência de menores ou testamento, lista e valor estimado dos bens, dívidas e partilha pretendida. Peça validade da proposta e itens excluídos.
Monte uma tabela com cinco colunas: item, valor estimado, responsável pelo pagamento, momento de vencimento e fonte. Evite comparar apenas o total. Uma proposta pode incluir declaração fiscal e registros; outra pode limitar-se à minuta da escritura.
Por fim, destaque valores ainda desconhecidos e adote reserva. Orçamento transparente não finge precisão onde faltam documentos. Ele mostra faixa, hipótese e evento que fará o número mudar. Assim, o custo do inventário extrajudicial deixa de ser um palpite e se torna uma projeção revisável.
Perguntas frequentes
Qual é o valor do inventário extrajudicial?
Depende do patrimônio, estado, tabela de emolumentos, registros necessários, imposto, honorários e regularizações. Um orçamento confiável precisa listar bens e partilha.
O ITCMD deixou de existir em 2026?
Não. O CNJ retirou a exigência de pagamento prévio como condição da escritura, mas o imposto e as regras estaduais permanecem.
O cartório cobra um valor único?
Não necessariamente. Há a escritura no tabelionato e, depois, atos de registro para cada bem. Tabelas e faixas variam por estado.
Posso pagar as despesas com a venda de um bem?
Existem hipóteses regulamentadas para alienação destinada às despesas do inventário, com requisitos, orçamento, garantia e controle. A viabilidade deve ser analisada antes da escritura.
Partilha desigual aumenta o custo?
Pode aumentar. Excesso sem compensação pode caracterizar doação e gerar imposto adicional, além de alterar emolumentos e registros.
Orçamento bom mostra a fórmula
O custo do inventário extrajudicial precisa ser demonstrável: patrimônio e quinhões formam a base; imposto, escritura, registros, honorários e pendências formam as parcelas. Com fontes oficiais e cenários, a família decide sem surpresa.
Leia também as etapas do inventário de imóvel e entenda como funciona o inventário extrajudicial na prática.


