Quando o condomínio não faz manutenção, o problema pode sair da aparência e atingir segurança, salubridade e patrimônio: infiltração, fissura, elevador defeituoso, portão inseguro, tubulação obstruída e fachada deteriorada podem causar danos progressivos. O morador deve registrar o risco, comunicar a administração e pedir providência com prazo, sem improvisar obra em área comum.
A responsabilidade depende da origem do defeito, da área atingida, da urgência e das provas. Nem toda infiltração vem da fachada; nem todo reparo interno cabe ao condomínio. Laudo técnico, histórico e notificação ajudam a separar área comum, unidade autônoma, vício construtivo e falta de conservação. Se houver risco imediato ou prejuízo crescente, orientação jurídica pode viabilizar medida urgente.

Neste guia:
- Quem deve cuidar da manutenção
- Como produzir prova
- Como cobrar providências
- O que fazer em urgência
- Quando recorrer à Justiça
- Perguntas frequentes
Quem é responsável pela manutenção?
O síndico deve diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns e zelar pelos serviços de interesse dos possuidores. Essa atribuição está no artigo 1.348, inciso V, do Código Civil. Fachada, telhado comum, prumadas, estrutura, corredores, elevadores e equipamentos coletivos normalmente integram essa esfera.
O morador responde pelo interior da unidade e por danos causados por suas instalações, obras ou uso. Uma infiltração pode vir de tubulação comum, impermeabilização da fachada, cobertura privativa, banheiro vizinho ou vazamento interno. Antes de atribuir culpa, é preciso investigar origem. A matrícula, convenção e planta ajudam a definir limites, mas a prova técnica costuma ser decisiva.
Construtora e fornecedores podem responder por vício de projeto ou execução dentro dos prazos aplicáveis. O condomínio não deve apenas culpar terceiro e deixar o dano evoluir; pode ser necessário realizar medida emergencial e depois discutir ressarcimento. Responsabilidades podem ser concorrentes quando falha original e ausência de conservação contribuem para o resultado.
- Fachada: fissuras, revestimento e vedação normalmente envolvem área comum.
- Prumadas: tubulações verticais coletivas exigem avaliação do condomínio.
- Ramais internos: instalações exclusivas da unidade podem caber ao morador.
- Cobertura: responsabilidade depende da natureza comum ou exclusiva e da origem.
- Elevador: contrato, inspeção e conservação são coletivos.
- Portões e câmeras: segurança e funcionamento devem seguir plano de manutenção.
- Garagem: infiltrações e estrutura exigem diagnóstico técnico.
- Área de lazer: equipamentos precisam de conservação e interdição quando inseguros.
Como registrar a falta de manutenção?
Fotografe e filme com data, distância e detalhes. Mostre a área inteira e o dano específico. Em infiltração, registre evolução após chuva; em portão ou elevador, anote falhas e chamados. Preserve e-mails, mensagens, protocolos e atas. Relato verbal na portaria é difícil de provar.
Solicite vistoria e resposta escrita. Se o problema afeta unidade, permita acesso mediante agendamento e documente a visita. Recusar inspeção pode dificultar a apuração. Peça identificação do técnico, hipótese de origem, providência provisória, reparo definitivo e prazo.
Laudo ou relatório deve descrever sinais, causas prováveis, testes, risco, intervenção e responsabilidade técnica. Orçamento sozinho informa preço, não prova causa. Em disputa, uma perícia independente pode separar danos internos e fonte externa. A decisão citada em acórdão de 2026 reconheceu responsabilidade por infiltrações de fachada quando prova técnica demonstrou omissão e nexo, conforme o inteiro teor disponibilizado pelo STJ.

Como cobrar o condomínio formalmente?
Faça notificação com identificação da unidade, local do dano, data de início, riscos, tentativas anteriores e pedido. Anexe fotos e laudos. Solicite vistoria em prazo curto e cronograma. Em urgência, peça isolamento, desligamento ou medida provisória. Protocole por meio comprovável.
Se o síndico não responde, acione conselho e administradora e peça inclusão em assembleia. Um quarto dos condôminos pode convocar assembleia extraordinária nas condições legais. A pauta deve ser clara: inspeção, orçamento, contratação, rateio e cronograma. O objetivo é obter decisão executável, não apenas registrar insatisfação.
Consulte atas anteriores e plano de manutenção. A obra pode ter sido aprovada e estar aguardando recursos ou fornecedor. Isso não elimina dever de mitigar risco, mas muda a estratégia. Cobrar transparência, prioridade e medida temporária pode ser mais efetivo do que exigir solução impossível em prazo irreal.
Uma boa notificação transforma “o prédio está abandonado” em fatos verificáveis: área, defeito, risco, protocolo, providência pedida e prazo.
O morador pode fazer reparo urgente?
Intervir em área comum sem autorização é arriscado. Pode afetar segurança, garantia, estética e outros moradores. A regra é notificar e permitir que o condomínio atue. Em emergência verdadeira, quando a demora amplia dano ou impede atividade essencial, a lei admite situações de execução direta e posterior pedido de ressarcimento, mas a urgência e o gasto precisam ser provados.
O TJDFT reconheceu reembolso de reparo emergencial em tubulação após omissão de manutenção, destacando que a urgência dispensava múltiplos orçamentos naquele caso. A decisão sobre reparo urgente por falta de manutenção não autoriza qualquer obra unilateral; mostra a importância de documentar necessidade, custo e vínculo com a área comum.
Antes de contratar, comunique por escrito, peça atendimento imediato e registre a impossibilidade. Guarde nota fiscal, relatório, fotos antes e depois e comprovante. Faça apenas o indispensável para cessar risco, evitando reforma ampla. Se houver perigo estrutural, incêndio, gás ou eletricidade, acione serviços de emergência e autoridades competentes.

Quando uma ação judicial pode ser necessária?
A via judicial pode ser adequada quando o condomínio conhece o dano e permanece inerte, quando há risco à saúde ou segurança, quando o prejuízo cresce, quando assembleias não resolvem ou quando existe recusa de acesso a documentos. Os pedidos podem envolver obrigação de fazer, tutela de urgência, ressarcimento e indenização.
Para tutela urgente, demonstre probabilidade do direito e perigo de dano. Fotos isoladas podem ser insuficientes; laudo, protocolos e evolução fortalecem o pedido. Defina o que precisa ser feito: vistoria, isolamento, reparo específico ou contratação técnica. Pedidos vagos geram dificuldade de cumprimento.
O artigo sobre ações judiciais do condomínio e riscos processuais ajuda a compreender prazos e provas. Mesmo quando o morador é autor, deve estar preparado para perícia, acesso ao imóvel e discussão de causas concorrentes. Processar sem diagnóstico pode levar a obra no local errado.
Quais danos podem ser cobrados?
Danos materiais exigem comprovante e nexo: pintura, móveis, equipamentos, hospedagem ou reparo interno precisam estar ligados à omissão. Guarde itens danificados quando possível, fotos, notas e orçamentos. Evite descarte antes da vistoria. Depreciação e melhoria não se confundem com recomposição.
Dano moral não decorre automaticamente de todo vazamento. Duração, intensidade, insalubridade, perda de uso e impacto na família são avaliados. Uma mancha resolvida rapidamente difere de meses em ambiente impróprio. A prova deve mostrar consequências concretas.
Se houver seguro, comunique o sinistro sem reconhecer responsabilidade precipitada. Condomínio, seguradora, construtora e morador podem ter obrigações distintas. O recebimento de indenização não permite duplicidade pelo mesmo prejuízo, mas pode não cobrir todos os danos.
Como reduzir o problema enquanto aguarda?
Adote apenas medidas seguras de mitigação: afastar móveis, proteger objetos, ventilar e interromper uso de área perigosa. Não esconda o dano com pintura antes da inspeção. Em mofo, registre e busque orientação técnica; produtos improvisados podem agravar saúde ou eliminar sinais importantes.
Mantenha diário simples com datas de chuva, chamados, visitas e evolução. Informe novos fatos ao condomínio sem mensagens repetitivas. A linha do tempo ajuda a mostrar persistência e resposta. Se a administração apresentar cronograma realista, acompanhe marcos e documente descumprimentos.
Como transformar a reclamação em plano de manutenção?
Problemas crônicos raramente se resolvem com um orçamento isolado. Peça inventário das falhas, classificação de risco, prioridade, escopo e estimativa de custo. Fachada, impermeabilização, elétrica, hidráulica e equipamentos podem depender uns dos outros. Reparar apenas acabamento sem eliminar a causa gera gasto repetido e dificulta identificar quem responde pelo dano seguinte.
Na assembleia, a administração deve apresentar diagnóstico e alternativas comparáveis. Orçamentos precisam conter o mesmo escopo, materiais, responsabilidade técnica, prazo, garantia e condições de acesso. O menor preço não é necessariamente a melhor proposta. Se o serviço envolve estrutura, altura, gás, elevador ou eletricidade, habilitação e segurança são componentes do custo, não detalhes opcionais.
O quórum depende da natureza da obra. Reparos necessários têm tratamento diferente de melhorias úteis ou voluptuárias. Em emergência, o síndico pode executar providência necessária e comunicar a assembleia conforme as regras legais; quando a despesa é elevada, a prestação de informações e a convocação ganham importância. Classificar a obra de forma errada pode paralisar reparo urgente ou autorizar investimento sem deliberação adequada.
O plano deve indicar fonte de recursos. Fundo de reserva, chamada extra, seguro e cobrança da construtora têm requisitos próprios. Mesmo que exista ação contra terceiro, o condomínio pode precisar mitigar o dano antes do resultado. A assembleia pode aprovar etapas: contenção imediata, perícia, projeto, contratação e fiscalização. Esse fracionamento torna o cronograma verificável e reduz decisões baseadas apenas em urgência emocional.
Fiscalização também é essencial. Registre início, medições, alterações de escopo, testes e entrega. Fotografias anteriores e posteriores ajudam a conferir resultado. A garantia deve ser formalizada, com manual de cuidado e responsável por chamados. Sem documentação, a próxima gestão pode não saber o que foi executado e perder prazo para reclamar de defeito.
Se a maioria rejeitar qualquer providência apesar de risco comprovado, preserve ata, laudo e votos. A vontade coletiva não legitima exposição à insegurança ou dano continuado. O guia sobre ação por falta de manutenção em áreas comuns apresenta a via judicial como último recurso quando comunicação, conselho e assembleia não produzem solução adequada.
Perguntas frequentes
Toda infiltração é responsabilidade do condomínio?
Não. A origem pode ser área comum, unidade vizinha ou instalação interna. Vistoria e prova técnica definem responsabilidade e reparo.
Posso descontar o reparo da cota?
Não faça compensação unilateral sem base ou acordo, pois isso pode gerar inadimplência. Documente, peça ressarcimento e busque orientação.
O síndico responde pessoalmente?
Em regra, o condomínio responde por áreas comuns. Responsabilidade pessoal do síndico exige análise de conduta, culpa, poderes e prejuízo.
Preciso de laudo?
Nem todo caso exige laudo formal, mas questões de origem, estrutura, infiltração e risco costumam depender de avaliação técnica confiável.
Próximo passo
Se o condomínio não faz manutenção, registre o dano, notifique com prazo, peça vistoria e preserve provas. Identifique origem, área e urgência antes de contratar obra. Em risco imediato, priorize segurança e documentação.
Quando a omissão persiste ou causa prejuízo, um advogado imobiliário pode estruturar notificação, assembleia ou medida judicial, incluindo reparo e ressarcimento. A solução mais segura combina prova técnica, pedido específico e acompanhamento do cronograma.
Se o condomínio não faz manutenção mesmo depois de receber laudo e comunicações, organize um dossiê único com as datas, respostas, fotografias e estimativa de agravamento. Esse material permite avaliar a urgência, a responsabilidade por cada área e a medida menos onerosa capaz de interromper o dano. Também ajuda a evitar pedidos excessivos: o objetivo deve ser corrigir a causa, restaurar o que foi afetado e definir como o serviço será fiscalizado, sem transformar a disputa em conflito pessoal com o síndico ou os demais moradores.




